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Sala dos Professores

Fervo da Terra Deborah Goldenberg 1

O fervo da terra

Autor: Deborah Goldemberg

Nota da autora
Se escrever é a escola do escritor, este livro me trouxe duas grandes lições. A primeira foi compreender que a decisão mais importante do escritor é quem será o seu narrador, porque ele (ou ela) é quem dita o ângulo interpretativo da história. A escolha por Aké foi conceitual, porque em se tratando de uma novela cujo enredo gira em torno da disputa pela terra, eu quis que o narrador fosse o dono original dela, o que estava lá desde o início e viu a “tempestade” em torno dela se formar. Feita essa escolha, nasceu a demanda pela linguagem de Aké, que deu margem ao outro aprendizado. Devido à minha formação no estrangeiro, eu não havia ainda lido Guimarães Rosa quando escrevi esta novela, mas, mesmo sem referencial literário, intui que a história deveria ser contada na “voz cabocla” que eu tanto ouvira pelo Brasil rural, nos anos que trabalhei no Nordeste e na Amazônia. Percebendo que esta voz estava viva em mim, que eu conseguia mimetizá-la, eu me dei a liberdade de nela escrever. Erra quem pensa que Aké “fala errado”. Ele narra num misto de sua língua nativa e um português impregnado de diversas influências. O multilinguismo, na minha opinião, ainda é a principal característica da prosa falada do brasileiro, o que não surpreende quando lembramos que o nheengatu foi nossa língua oficial até 1758. A opção pela “voz cabocla” é muito mais do que um preciosismo – tendo incorporado Aké, eu constatei que muitas coisas que Aké sente e compreende não seriam possíveis em português de norma culta. O multilinguismo é um berço de liberdade e criatividade para ser e escrever. Há um estranhamento? Creio que no início há, mas logo passa. Boa leitura!

Sobre “O fervo da terra”
Deborah Goldemberg vagou pelos ermos da terra na década inteira em se que dedicou a programas de desenvolvimento sustentável no Norte e no Nordeste. Sua formação antropológica e seu talento literário a tornaram sensível aprendiz da língua do sertão, aquela fala cheia de rebuscamentos e sonoridades de obra de arte. Eco da sonoridade barroca que ficou por aí na fala cantada do povo sertanejo e nas sutilezas do duplo sentido que a caracteriza e que é o seu conteúdo. O que nela importa é a correção das idéias na dialética dos opostos que lhe dá sentido. Língua mestiça, não é por acaso que Aké Panará, dado ainda criança pela mãe indígena desenraizada ao gaúcho Luis de Castilhos para que lhe desse de comer em troca do trabalho que dele pudesse obter, é o narrador desta trama. Aliás, contada como caso num julgamento por homicídio em decadente vila sertaneja. O fazendeiro chegava ao norte do Mato Grosso para ocupar o lote que lhe dera o governo em terra que fora território ancestral de gente como Juruna, o Xavante que ele não era, apelido que o patrão dera ao menino sem eira nem beira. A narrativa de Aké tece a visibilidade da trama de ocultações que enredam a vida de cada um nos liames da tumultuada e violenta ocupação da fronteira. A fala mansa de Aké desenterra do garimpo Peixoto de Azevedo o ouro da ambição sem fim, o equivalente geral que dissolve na desordem o império da ordem. É o ouro que articula os opostos, que dissolve num o que é de outro. Na disputa com o garimpo invasor de suas terras de cultura o gaúcho “repudiava de um lado e se enroscava de outro”. Fazia uma coisa, fazendo outra. Antes de sucumbir como gaúcho empreendedor, testemunha Aké, Luis de Castilhos já conhecia que “era coisa indomável aquele mundo. ‘Como é possível fazer tudo errado e dar tudo certo?’” A terra fervia.
E aos poucos, nos desavessos das mudanças, Aké medita sobre a corrosão do que parecia ser e não era, do patrão Luis tresmudado, no triunfo sutil da desordem, nas acomodações e arranjos que são bem o que o Brasil acaba sendo todos os dias: “é que o inimigo não tira só as nossas terra, ele entra pra dentro da alma nossa”.
José de Souza Martins
Professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas USP. Autor de diversos livros. Ganhou o prêmio Jabuti de Ciências Humanas em 1993 e 1994.

Atividades para a sala de aula
Compreensão

1)    O que significa fervo?
R: Fervo é um regionalismo gaúcho que significa confusão ou conflito.
2)    Quem é o narrador de O Fervo da Terra?
R: Aké Panará.
3)    Porque Seu Luis chamava Aké de Juruna?
R: Porque os gaúchos gostam de dar apelidos às pessoas e a imagem do índio Mário Juruna, que foi Deputado Federal, dominava o seu referencial em relação aos índios.
4)    De onde ele narra a história por ele vivida e para quem?
R: Ele narra a história do banco de um tribunal, para o juiz e o júri popular.
5)    Quem são os familiares de Seu Luis?
R: Primeiramente, Fernanda e seus três filhos Luizinho, Vânia e Otavinho. Posteriormente, ele casa-se com Sislene e tem um filho.
6)    Com quantos funcionários Seu Luis contava para gerenciar sua fazenda?
R: Aké, Dona Dolores e peões contratados esporadicamente para tarefas específicas.
7)    Conforme a experiência de Seu Luis, quais as vantagens do associativismo?
R: O associativismo permitiu os pequenos produtores livrarem-se do intermediário, venderem direto ao matadouro e lucrarem mais com a produção.
8)    Quem foi a primeira companheira de Aké, qual era sua origem e qual foi o seu destino?
R: Nina, vinda do Piauí, filha de uma costureira e um garimpeiro. Seu destino foi a prostituição no garimpo.
9)    Quais órgãos governamentais são personagens em O Fervo da Terra?
R: O governo federal, que assentou os gaúchos no Mato Grosso, a polícia militar local, o exército brasileiro, ambos tentaram remover o garimpo, o judiciário brasileiro e o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
10)    O que Seu Luis sonhava plantar na sua fazenda? Porque?
R: Seu Luis sonhava plantar grãos de arroz e soja na sua fazenda, porque essas culturas tem valor agregado e trazem o desenvolvimento para a região, uma vez que demandam maquinário, insumos, galpões, etc.
11)    De onde vinham os garimpeiros que invadiram a fazenda de Seu Luis?
R. Eles vinham da região Norte do país, dos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Rondônia.

Para reflexão

1)     Porque Seu Luis, como tantos outros gaúchos e povos do Sul, migraram para o Mato Grosso e outros estados da Amazônia?
R: Em várias regiões do Sul do país existe a tradição do minifúndio entre os agricultores familiares e, na medida em que as famílias vão crescendo, não há terra para todos, o que cria uma demanda por novas áreas. Também, o governo federal da década de 1970 tinha a preocupação de “ocupar a Amazônia para não perdê-la” para outros países, portanto criou incentivos fiscais e programas de colonização para atrair agricultores de outros estados para irem morar na região.
2)    Porque os imigrantes sulistas foram assentados pelo próprio governo em terras que eram indígenas?
R: Na época, os direitos indígenas não eram tão bem garantidos e respeitados como após a Constituição de 1988 e o fortalecimento do movimento indígena, portanto os interesses desenvolvimentistas predominavam sobre eles. Também, toda a região Amazônia era bastante isolada e havia um desconhecimento da dinâmica dos povos que ali viviam, muitos dos quais eram nômades e deslocavam-se por um território amplo sem ocupá-lo o tempo todo.
3)    O que torna um garimpo ilegal, como foi o de Peixoto de Azevedo? Seria possível haver um garimpo legalizado?
R: O garimpo é ilegal porque: (i) as terras eram invadidas e não de propriedade ou concessão dos garimpeiros, (ii) os garimpeiros não tinham adquirido os direitos ao minério contido no subsolo, que pertencem à União, (iii) a lei ambiental estava sendo infringida, por exemplo, desmatamento e lançamento de resíduos tóxicos no rio e (iv) as normas trabalhistas e de segurança do trabalho não eram respeitadas pelos garimpeiros. Remediadas essas questões, é possível haver um garimpo legal.
4)    Se a atividade garimpeira é tão arriscada, porque há tantos garimpeiros no Brasil?
R: A pobreza extrema, o desemprego e a falta de oportunidades são fatores que levam pessoas a engajarem-se em atividades arriscadas como garimpo, mas também há uma cultura (e psicologia) de garimpo que faz com que muitas pessoas se fascinem pela oportunidade de ficarem ricas rapidamente.
5)    Porque O Fervo da Terra não é escrito no português de “norma culta”?
R: O português de norma culta é pouco falado no Brasil, particularmente nas zonas rurais e de forte influencia indígena e afro brasileira. Como o narrador é um índio, o livro foi escrito mimetizando a fala deste grupo social.
6)    Como o desmatamento é encarado por Seu Luis e Aké? Há mudanças entre suas percepções e as dos fazendeiros de hoje?
R: O desmatamento é encarado com total naturalidade, o desmate sendo uma etapa requisito da produção econômica. Atualmente, o conhecimento das leis ambientais está disseminado entre os fazendeiros, mas muitos ainda não concordam em sacrificar áreas de produção pela simples conservação da mata. Ou seja, há ainda um conflito forte entre a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento econômico.
7)    Como as condições dos trabalhadores nas fazendas eram encaradas por Seu Luis e Aké? Há mudanças entre suas percepções e as dos fazendeiros de hoje?
R. O trabalho escravo era encarado com total naturalidade, particularmente dado que os trabalhadores passavam necessidades ainda maiores antes de engajarem-se neste tipo de trabalho. Hoje, há leis rígidas para evitar esse tipo de trabalho e os fazendeiros têm conhecimento delas, no entanto, ainda hoje no Brasil o trabalho escravo é praticado regularmente.
8)    Porque Seu Luis abominava tanto os garimpeiros?
R: Porque eles eram diferentes dele e competiam por recursos com ele.
9)    Na sua opinião, quem tinha direito às terras de O Fervo da Terra? O índio Aké, o gaúcho Luis ou os garimpeiros sob a liderança de Messias?
R: Resposta livre.
10)    Quais as principais diferenças entre a cultura gaúcha, indígena e dos garimpeiros?
R: Resposta livre.
11)    Na sua opinião, quem é o grande culpado pelo “fervo da terra”?
R: Resposta livre.

Para pesquisar

1)    O que você saber sobre a etnia Panará? E sobre as outras dezenas de etnias que vivem no Mato Grosso? E sobre as centenas que vivem no Brasil? Pesquise na internet.
http://www.socioambiental.org/ e http://www.funai.gov.br/
2)    Você já viu fotos do garimpo de Serra Pelada? Pesquise na internet as fotos de Sebastião Salgado.
3)    Você conhece os CTG’s? Centros de Tradição Gaúchos? O que eles pensam e quais tradições eles preservam. Pesquise na internet.