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Sala dos Professores

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Apesar do Amor

Autor: Marli Walker

OBRA APROVADA NO PNLD LITERÁRIO 2018

Categoria: 5 – Código  0571L18601  (4° e 5° anos do ensino fundamental)

Obra indicada também para o ensino fundamental II e médio

 

COMENTÁRIOS E SUGESTÕES DE ATIVIDADES SOBRE O LIVRO APESAR DO AMOR – PARA PROFESSORES

INFORMAÇÕES PARATEXTUAIS (que contextualizem autor e obra, motivem o estudante para a leitura, justifiquem a correspondência entre a obra, a categoria, os temas e o gênero literário):

O livro Apesar do amor foi aprovado pelo MEC para integrar o catálogo dos livros do programa PNLD literário 2018. É composto por 51 poemas. O livro está dividido em 04 seções intituladas: (RITOS INICIAIS); (ATOS E OMISSÕES); (MEA CULPA); (EM NOME DA MÃE DO FILHO E DO AMOR SEMPRE SANTO AMÉM). Esses títulos aparecem entre parênteses, o que pode causar curiosidade aos estudantes.  Geralmente os parênteses são usados para a introdução de explicações, comentários, considerações e reflexões sobre algo que foi mencionado. No caso deste livro, como se tratam de títulos de seções cujos poemas ainda serão apresentados, o uso é instigante e pode ser interpretado de várias maneiras. Uma delas é chamar a atenção para o deslocamento dos sentidos dessas expressões do campo semântico religioso, do imaginário cristão (a crença cristã é a de maior expressividade no território brasileiro) para outro campo: a vida social. Pode-se ressaltar que a atividade agrícola, primitivamente, possuía um caráter sagrado. Orações e oferendas eram feitas nos ritos desde a semeadura até a colheita, e o sol e a chuva eram adorados como deuses. Da antiguidade para cá, houve uma profanação desses sentidos. Talvez, por isso, a autora tenha recorrido ao campo simbólico religioso, a fim de acentuar essa transformação. No quadro abaixo, falaremos sobre cada uma dessas seções, apresentando pelo menos um poema em cada.

É interessante olhar para o livro como uma unidade. Assim, cada seção, com seus poemas, do começo ao fim, vai revelando o projeto da poeta de expressar, em versos curtos e livres, seu espanto diante de uma realidade social em que se vislumbra, simultaneamente, a fartura e a fome, o verde e o deserto, os grãos e a mesa vazia. Por fim, diante dos contrastes e da perplexidade e tristeza que eles causam, a poeta se socorre nas próprias imagens da terra para tecer, com a escrita e pela poesia, a esperança. A terra é ventre, é mãe, recebe a semente e gera o fruto. Não há maior gesto de amor do que esse. É um amor de mãe. E apesar de todo esse amor, os humanos ainda não estão preparados para a fraternidade. Mas esse amor é poderoso. Quem sabe isso não muda o futuro? Pela poesia, pela literatura, pela arte é possível transformar consciências. Esse é o papel humanizador que as escolas podem fortalecer com o trabalho importante da leitura do texto literário.

Marli faz parte de uma leva de migrantes de veio do sul do país para o norte de Mato Grosso. Residindo por muitos anos em Sinop, viu com os próprios olhos a transformação daquele espaço de floresta para grandes lavouras. Atualmente, o estado de Mato Grosso é o maior produtor brasileiro de grãos, um dos principais segmentos econômicos do país. É nesse contexto que a obra surge e propõe importantes reflexões, as quais são apropriadas a qualquer região do país: como pode haver tanta riqueza, se há fome na mesa do menino? Meninos e meninas, leitores e leitoras, possivelmente, ao se colocarem no lugar desse personagem, poderão ver a realidade também por outras perspectivas, ampliando sua visão de mundo e almejando um futuro com menos desigualdade social.

Todos os poemas são grafados em letras minúsculas e sem pontuação, em contraste com o título das seções, grafados em maiúsculas e com a pontuação dos parênteses. Uma leitura global do texto permite inferir que essa opção de grafia ajuda a enfatizar os contrastes entre os grandes e os pequenos, entre a riqueza e a pobreza, entre a desolação e a esperança.

A faixa etária recomendada para este livro são os estudantes dos anos finais do ensino fundamental II e médio.

 

MATERIAL DE APOIO

Pré-leitura

O/a professor/a poderá dividir a sala em dois grandes grupos sugerir uma pesquisa na internet sobre: a) os dados de produção de alimentos no Brasil; b) os dados de analfabetismo, desemprego, condições habitacionais, alimentação etc. num projeto interdisciplinar com professores de história, geografia e ciências.  Depois de apresentados e analisados os dados, que podem ser enriquecidos com gráficos e fotografias, iniciar a leitura do livro.

Pós-leitura

Como atividades de produção de leitura mediadas por professores, apresentamos as seguintes propostas para cada seção do livro, lembrando que são apenas sugestões, cada professor, conhecedor da sua turma e da realidade da sua sala de aula, poderá adaptar estas sugestões livremente.

 

PRODUÇÃO DE LEITURA DE POEMAS DA SEÇÃO

SEÇÃO – (RITOS INICIAIS)

COMENTÁRIO

Os ritos são um conjunto de práticas que compõem uma cerimônia religiosa ou não. No caso deste livro, os ritos iniciais podem ser interpretados como os ritos de leitura para a cerimônia da escrita. O que essa escrita revelará? É preciso ir adiante nas páginas para descobrir.

escritura

 

finíssimo gosto macio

tanto fio e tanta vinha

é tua mão ou a minha?

  • De que escritura o eu lírico (essa voz, esse eu que se pronuncia no poema) está falando? Procure no dicionário significados para a palavra escritura. Quais desses significados são pertinentes ao contexto desta obra?

Obs.: Anotados os significados (escritura de cartório indicando posse, escritura sagrada, etc) essa questão poderá ser respondida ao final do projeto, pois é preciso uma leitura global do livro para verificar a pertinência dos significados.

  • tanto fio e tanta vinha são imagens que podem remeter ao fio da escrita e ao ato laboral da escrita, comparado ao trabalho do cultivo da vinha. Se forem assim interpretadas essas imagens, torna-se instigante o verso final: é tua mão ou a minha? Por que o eu lírico faz essa indagação? De quem é a escritura?

Resposta esperada: Ao fazer essa pergunta, o eu lírico propõe ao leitor que pense também no seu trabalho interpretativo, na sua produção de leitura como parte do processo. Além disso, ao falar de temas que fazem parte de um contexto social e cultural, o autor não é apenas uma voz individual, mas uma voz coletiva, representando, também, a visão de mundo de mais pessoas.

Na construção do texto, o professor pode ainda chamar a atenção para:

Trata-se de um terceto, uma estrofe de 3 versos, quase do mesmo tamanho. O primeiro possui 8 sílabas poéticas e os outros dois, sete.

Há presença de uma sequência de rimas toantes. A rima toante é aquela em que rimam apenas as vogais tônicas das palavras. Observe: fin(í)ssimo, mac(i)o, fio; essa sequência combina com  vinha; minha, um par de rimas consoantes, pois além da vogal tônica, as consoantes nh também combinam.

Também há rimas em: tanto, tanta, mão. (ã)

verbo

 

não dizer

é afogar

no próprio sangue

o filete de ar

e morrer

 

dizer

é ferir à faca

a palavra

e sangrar

até viver

 

  • O título desse poema remete a que significados? Pense na palavra isolada e também no sentido global do texto:

Resposta esperada: verbo é uma categoria gramatical que geralmente expressa ação. Também é tomado como substantivo quando designa palavra, nesse caso, uma palavra que uma vez pronunciada, produz efeito em quem ouve ou lê. Veja-se o exemplo bíblico: “no princípio, era o verbo.” Pensando-se no sentido global do livro, verbo significa a própria poesia, que expressa uma visão do mundo e, ao ser lida, essa visão é repartida entre as pessoas.

  • Na primeira estrofe, o eu lírico refere-se ao não dizer, e na segunda, ao dizer. Quais as diferenças entre uma e outra ação, demonstradas pelo eu lírico?

Resposta esperada: assim como na vida, quem guarda as dores para si e não as expressa pode ficar doente e morrer, na poesia também é necessário expressar os sentimentos, tantos os individuais como os coletivos. Mesmo que isso cause desconforto, num primeiro momento. Pela palavra, podemos expor os problemas e tentar resolvê-los.

 

SEÇÃO – (ATOS E OMISSÕES)

COMENTÁRIO

A expressão “atos e omissões” faz referência a  um trecho de uma oração rezada nas missas católicas durante uma parte do rito chamada ato penitencial, em que as pessoas confessam seus pecados sejam por pensamento, sejam por atos, sejam por omissões. Ao nomear essa seção do livro assim, a poeta chama a atenção para a responsabilidade dela e de todos sobre os modos de viver da nossa sociedade.

ciranda

das poucas coisas que julgava saber

uma era certa

aquilo que convinha ao bicho homem

aquilo que justificava sua vida e sua morte

era a fome

de todas as fomes que julgava conhecer

uma era certa

aquilo que convinha ao bicho homem

aquilo que justificava sua vida e sua morte

era a fome

de todas as fomes que julgava conhecer

uma era certa

aquilo que convinha ao bicho homem

aquilo que justificava sua fome e sua morte

era a vida

de todas as vidas que julgava conhecer

uma era certa

aquilo que convinha ao bicho homem

aquilo que justificava sua fome e sua vida

era a morte

 

  • Qual o significado da palavra ciranda? Como essa palavra se ajusta a esse poema? Que aspectos da estrutura dos versos enfatizam esse significado?

Resposta esperada: ciranda pode ser uma cantiga de roda infantil, pode ser uma dança  e remete à ideia de circularidade. Assim, ciranda é o próprio movimento do poema que repete as mesmas estruturas sintáticas,  mudando o lugar das palavras fome, vida, morte, como numa dança.

  • Três palavras são chaves nesse texto: fome, vida e morte. Como elas se relacionam? De que modo você as interpreta no contexto do poema e desta seção do livro?

Resposta esperada: nos cinco primeiros versos, a justificativa para a luta é a sobrevivência. Todos precisam de comida para viver. Nos cinco seguintes, a justificativa já não é mais a sobrevivência. À vida, são acrescentados outros desejos. Nos últimos, a justificativa é a morte. O significado de morte aqui é polissêmico. Pode ser o desfecho natural de todo ser humano, todos, um dia morreremos, mas pode ser, também, a morte causada pela ambição excessiva, pela ganância. O professor pode chamar a atenção dos alunos para o fato de o humano ser chamado de: bicho homem.

  • A repetição pode ser um dos elementos de composição de um poema. Nesse, em especial, temos anáfora (uma figura de linguagem em que as mesmas palavras são repetidas no início dos versos) e paralelismo sintático (que diz respeito ao modo como as palavras estão distribuídas no verso causando uma repetição de funções sintáticas). Peça ajuda ao professor de língua portuguesa para compreender como essas construções acentuam os significados do título e de todo o poema.

Resposta esperada: tanto a anáfora como o paralelismo sintático, por repetirem a mesma estrutura nos versos, apenas mudando o lugar de algumas palavras, reforça o sentido de ciranda, de dança circular.

 

SEÇÃO – (MEA CULPA)

COMENTÁRIO

Seguindo no campo semântico do ato penitencial, depois de confessar os pecados por atos e omissões, o eu lírico assume a “minha culpa”. Esta seção prolonga os significados da primeira.

 

o alimento ainda verde na lavoura

o menino ainda verde e pequeno

o veneno do homem

no destino dos dois

 

  • No poema, as imagens do “alimento ainda verde” e do “menino ainda verde e pequeno” estão submetidas aos efeitos do homem adulto e do veneno. Pensando na realidade brasileira, desenvolva melhor as ideias sintetizadas nesse texto:

Resposta esperada: o poema traz imagens que enunciam a vida ainda germinando, tanto da semente, quanto do menino. Ambos estão pequenos, mas a mão do homem já envenenou a vida dos dois. Embora ainda sejam verdes e puros, existe em seus destinos a mancha do agrotóxico (muito usado nas lavouras brasileiras) que condena a vida de ambos e, por isso, o destino dos dois é comum. Os dois primeiros versos trazem o paralelismo entre o alimento e o menino, semelhança que será reforçada nos dois últimos versos, quando a ação gananciosa do homem sobre o meio ambiente contamina a terra e os alimentos e, por consequência, a vida do menino. O menino presente no poema é metáfora de toda sociedade que é vítima do efeito nocivo dos agrotóxicos usados nas lavouras. Além do sentido primeiro da palavra veneno, é possível também pensá-lo como uma metáfora para ganância.

 

SEÇÃO – (EM NOME DA MÃO DO FILHO E DO AMOR SEMPRE SANTO AMÉM)

COMENTÁRIO

Esta seção fecha destacando a imagem da mãe, tanto a divina – que pode ser a natureza, a terra, e, conforme a crença religiosa, a mãe de Jesus – como a humana, que são as mulheres mães, especialmente as pobres que, às vezes, com a ausência dos pais, criam os filhos sozinhas e lutam bravamente para o sustento da família.

Há também uma subversão do “sinal da cruz” oficial do catolicismo, que omite a presença da mãe. Neste, a trindade se estabelece com a mãe, o filho e o amor. A imagem da mãe é simbólica. Remete a aconchego, à proteção, a amor. Os versos que fecham o livro invocam essa ajuda: “(rogai por nós/ mãe querida)”. Nesse ponto, os sentidos do livro como uma unidade voltam-se ao título: Apesar do amor.

Há muito amor na natureza e nas pessoas, apesar dele, a escassez e a miséria se estabelecem. Entretanto, só acentuando esse amor, refletindo sobre ele, formando uma consciência mais cidadã, a esperança torna-se possível.

 

êxodo

são pequenas as sementes

mínimas chances de ser

alento

conforto

fartura

máxima oferta é crescer

em outra lavoura madura

 

em território baldio

só a chuva

só o sol

e amor em safra dura

 

levanta menino

vai

 

  • pesquise na internet o significado da palavra êxodo. Quais deles são apropriados para o poema e para o livro?

Resposta esperada: êxodo significa: 1) passagem, saída, mudar de uma terra para outra. Nesse caso, pode originalmente significar as migrações que ocorreram para Mato Grosso, incentivadas por uma política do governo federal, em busca de uma terra prometida; num sentido mais amplo e levando-se em conta o contexto do livro, o êxodo pode significar mudança de visão, de perspectiva, outro olhar sobre o futuro. 2) no teatro da Grécia Antiga, a parte final de uma peça. No contexto do livro, esse é um dos últimos poemas.

 

Quando o eu lírico diz: “vai menino”, que hipóteses podemos levantar? Vai para onde? Fazer o quê? (resposta pessoal)

Marli Walker é natural de Santa Catarina, mas vive em Mato Grosso há mais de 30 anos. Doutora em Literatura e Práticas Sociais, leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso – Campus Cuiabá e no Programa de Mestrado Acadêmico em Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso. Publicou os livros Pó de serra (2006) e Águas de encantação (2009), ambos de poesia. Acredita que a educação formal é o único caminho para transformar a vida das pessoas.

Para maiores informações sobre as autoras Marli Walker e Marta Cocco, consulte neste site (Dowload de E-book) o volume 3 da Antologia Poética Comentada Nossas Vozes, Nosso chão.